Um episódio do seriado global “A Grande Família”, apresentado no último dia 09, mostra uma questão polêmica que tem atormentado o governo federal e os responsáveis pelas universidades brasileiras. No episódio, o personagem Tuco, representado por um ator branco, diz ter feito inscrição no vestibular para concorrer à cota destinada aos negros, porque ao olhar no espelho achou a sua pele um pouco parda. Brincadeiras a parte, o seriado faz uma crítica ao projeto de inclusão social que pretende criar cotas para estudantes negros nas universidades. A medida, que pretende reverter as distorções raciais na educação, propõe uma discussão que está longe de ser resolvida.
Em primeira análise surge o impasse da determinação da raça. Segundo o último censo do IBGE, realizado em 2000, cerca de 75 mil brasileiros se auto-consideram pardos e negros, sem que haja, no entanto, critérios étnicos ou biológicos definidos que sustentem estas determinações. Esse seria um grande impasse para determinar quem teria direito às vagas nas universidades. Outro questionamento sobre o projeto é que ele não seria a solução para a desigualdade no país. Isso porque o problema é muito mais amplo do que aparenta.
As diferenças entre brancos e negros são evidenciadas em todos os setores, principalmente na educação. De acordo com dados do IPEA, 46,8% dos negros do país estão abaixo da linha de pobreza, entre brancos a taxa é de 22,4%. O reflexo disso é que grande parte da população negra mora em periferias, convive com a violência, precisa trabalhar para compor a renda da família e só tem acesso ao ensino público.
A educação pública, por sua vez, encontra-se em estado precário. Cada vez menos recursos, professores desmotivados e sem condições de oferecer aos alunos uma formação adequada, para que ele consiga futuramente disputar uma vaga nas universidades públicas. O último censo divulgado pela Universidade de São Paulo revela que apenas 1,30% dos 38.930 alunos de graduação são negros. No Brasil, os negros ocupam somente 8% das vagas nas universidades públicas.
Diante desse quadro as cotas seriam uma medida paliativa para amenizar o problema estrutural de desigualdade social no país. Mas ela só serve como alternativa emergencial, sendo necessários investimentos e esforços a médio e longo prazo para melhoria da rede pública de ensino.
Por: Bruna Moreira Faria, Fernanda Rios e Raquel Nascimento
Setembro / 2004
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